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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O RELÓGIO


 Na verdade, minha vida e meu dia a dia não é pautado pelo tictac contínuo de um relógio. Gosto de pontualidade, não me atrazo em meus compromissos mas...antes da meia noite ainda é hoje!
Como vivo no campo o nascer e o pôr do sol, a rotina dos cavalos ditam minhas horas. Nas aulas, a capacidade de atenção de meus alunos avisa a hora de uma pausa e a hora de terminar a jornada é quando, obviamente, o cansaço mental não permite a assimilação de novas informações.
Dito isto, deu para suspeitar que não uso relógio de pulso, não tenho relógio em meu quarto nem em minha área de trabalho, que por sinal, é uma arena de areia na qual trabalho com meus cavalos e relógio do telefone celular não é bem vindo.
Assim mesmo tem um relógio muito especial que marca minha vida: ele tem personalidade! Isso mesmo, personalidade e vontade própria. É todo feito em madeira (menos as engrenagens, é claro) , movido a pêndulo e pesos. Tem a figura estilizada de um cavalo , no topo, e marcação de horas em numeros romanos desenhados em papel, que agora já está bem amarelado. E nem pensar em substituir!!! O ponteiro de horas até que é obediente mas depende de um insubordinado ponteiro de minutos. Acho que com a convivência, ele assimilou que a diferença de alguns minutos para mais ou para menos, no total do dia cheio de terefas, não faz a menor difereça. Ele tambem entendeu que antes da meia noite é hoje.
Ele está comigo há muito tempo. Antes da morte de meu pai , que foi em 1991. Me acompanhou em andanças e mudanças, nesta minha vida de cigana, andarilha ou hippie (como preferirem!).
A personalidade dele se manifesta em coincidencias. Prefiro chamar assim pois sou relutante em acreditar em situações paranormais, metafisicas ou algo assim. Mas confesso que, vez por outra, essa minha vertente fora do compreensivel se manifesta e desafia minha lógica.
Pois eu já morava fora de São Paulo, o  relógio mantinha o tiquetaquear grave e monotono pendurado no hall perto do meu quarto, quando, numa das noites de dezembro 1991, acordei assustada com um pesadelo. O relógio estava parado. Lembrei de meu sonho: meu pai me chamava angustiado. Não dei atenção e, de manhã, sai para trabalhar. Lancei meu jipe 8 valvulas em direção a São Paulo para mais uma jornada no hospital. Quando voltei, tarde da noite, para casa, no portão do rancho havia um bilhete: seu pai teve um enfarte subito e morreu. Fiz meia volta e fui o mais rápido que pude, e jipe não corre mesmo que voce tenha a maior pressa do mundo, de volta para São Paulo...
Tempos depois o relógio, por motivos que não vale a pena contar aqui, sumiu, desapareceu e não deixou pistas de seu paradeiro.
Mudei, mais uma vez, minha moradia. Há alguns anos, três mais precisamente, vasculhando uma loja de 'largados' , aqui em Ibiuna, achei o meu velho relógio. Desmontado, quebrado, judiado. Comprei, embrulhei cuidadosamente num pano e levei para casa. Peça a peça, com todo carinho, fui colando, untando e rejuntando e...finalmente pedurado na cantina ele começou a ressucitar num timido tictac. Assim voltou a marcar, totalmente sem utilidade, as horas mas a personalidade dele  se manifesta todas vezes que alguem querido está mal: ele para de funcionar e só retoma seu ritmo quando a situação está resolvida.
Porque justo hoje resolvi escrever sobre esse 'parceiro'? Em abril, deste ano, ele parou! Não houve impulso que o fizesse funcionar. Dia após dia eu movia seu falecido pendulo, puxava os pesos e nada. Hoje, do nada, resolveu funcionar. Sei que alguem querido está bem!!!