domingo, 11 de setembro de 2011

FLORES E CORES DO RANCHO GG

Tempos dificeis! Era época do pós guerra e, talvez por isto, eu tenha assumido esse meu espirito nomade, tão parecido com o de meus cavalos. Por uma necessidade de sobrevivencia meu pai se transferia frequentemente
de cidade, levando junto a família. Assim, a única casa que lembro como lar, até aos 7 anos de idade, era a da minha avó materna. Rodamos toda a Alemanha, da Baviéra, onde nasci, até a Prussia, origem de meu pai. O 'resto' da Europa vim a conhecer com nossa migração para a America do Sul. Anualmente nosso domicilio mudava, por dois, tres meses, para a Europa. Foi como entrei em contato com a cultura - musica, dança, teatro, pintura, escultura e costumes de outros povos. Foi muito bom mas tambem me impediu de fixar raizes e ter aquilo que muitos chamam de 'amigos de infancia'. Na verdade, tambem não tenho muito senso de 'familia'! Com a preemente necessidade de sobrevivencia, fui criada 'solta' aprendendo a resolver meus proprios problemas, desde cedo. Não me foi dada muita oportunidade de gritar por socorro. No final. acho que isto foi possitivo: me forjou a ferro e fogo, coisa que depois se mostrou essencial.
O gosto pelas cores nasceu nestas visitas aos museus. Os renascentistas sempre me encantaram. E as cores de Tisciano eram deslumbrantes. Aquele vermelho enferrujado...Minha memória o registrou e nunca mais o esqueci! Uma vez saida da casa de meus pais,essa minha  inquietude espacial ficou mais forte. Não haveria outra palavra para me definir melhor do que 'caminhante'. Não mais do que dois anos em um unico lugar! Nem que fosse na mesma cidade, tinha que mudar de domicilio. Buscando...Não me perguntem. Apenas buscando. A vocação profissional já bem definida mas, buscando. Vivia, nos finais de semana, nos intervalos entre o consultório e o hospital, todas horas vagas, na estrada. Em atividades paralelas, totalmente diferentes de minha profissão de escolha: desfiles, apresentações de dança, campeonatos equestres, rodeios...qualquer coisa que me colocasse viajando, satisfazendo meu lado cigana.
Voces que me conhecem centrada, não se assustem. Essa 'nomadez' tambem era totalmente centrada. Nunca duvidei de minha vocação. Apenas buscava e não sabia bem o que. Talvez uma familia, talvez um lugar, talvez minhas raizes. Era esse 'talvez' que me fazia buscar. Não me sentia deslocada. Em lugar nenhum. E isso me fazia sentir estranha: todas pessoas que conheci tinham saudades de um lugar, de pessoas e eu NÂO. Isso sempre me pareceu estranho. Não tinha saudades nem de minha infancia, nem de minha juventude e isso era muito estranho.
Coisas das quais eu tinha certeza: minha vocação, meu amor e minha vontade de viver. Viver muito, intensamente, plenamente.
Foi andando pelas estradas que cheguei à conclusão que minha familia era a humanidade e meus cavalos. E assim consegui, finalmente parar. Achei um lugar, em meio à mata atlantica, judiado pela lavoura pradatória. A única arvore do local, um pinheiro, decidi, contra todas as recomendações, manter. De resto era um capoeirão, de terra esgotada, acida de tanto agro tóxico, de vegetação seca e rasteira e muitos, muitos carrapatos. Plantei a primeira arvore para marcar minha posse: uma paineira. Escolha planejada - ela pela sua sancionalidade me marcaria a passagem das estações, a passagem dos anos. Não falhou na tarefa. Primavera, se enche de folhas, verão se enche de flores, outono de frutos e no inverno aproveita a estiagem para explodir em flocos brancos de paina. Hoje sua copa cobre 20 metros de diametro, abriga um condominio de casas de João de Barro e seu tronco espinhudo tem mais de quatro metros de circunferencia.
Bem, comprei a terra, estendi uma lona e, por um par de anos, essa foi a minha moradia com o firme propósito de plantar, junto com os meus cavalos,
 SONHOS, IDEAIS E FLORES.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O RELÓGIO


 Na verdade, minha vida e meu dia a dia não é pautado pelo tictac contínuo de um relógio. Gosto de pontualidade, não me atrazo em meus compromissos mas...antes da meia noite ainda é hoje!
Como vivo no campo o nascer e o pôr do sol, a rotina dos cavalos ditam minhas horas. Nas aulas, a capacidade de atenção de meus alunos avisa a hora de uma pausa e a hora de terminar a jornada é quando, obviamente, o cansaço mental não permite a assimilação de novas informações.
Dito isto, deu para suspeitar que não uso relógio de pulso, não tenho relógio em meu quarto nem em minha área de trabalho, que por sinal, é uma arena de areia na qual trabalho com meus cavalos e relógio do telefone celular não é bem vindo.
Assim mesmo tem um relógio muito especial que marca minha vida: ele tem personalidade! Isso mesmo, personalidade e vontade própria. É todo feito em madeira (menos as engrenagens, é claro) , movido a pêndulo e pesos. Tem a figura estilizada de um cavalo , no topo, e marcação de horas em numeros romanos desenhados em papel, que agora já está bem amarelado. E nem pensar em substituir!!! O ponteiro de horas até que é obediente mas depende de um insubordinado ponteiro de minutos. Acho que com a convivência, ele assimilou que a diferença de alguns minutos para mais ou para menos, no total do dia cheio de terefas, não faz a menor difereça. Ele tambem entendeu que antes da meia noite é hoje.
Ele está comigo há muito tempo. Antes da morte de meu pai , que foi em 1991. Me acompanhou em andanças e mudanças, nesta minha vida de cigana, andarilha ou hippie (como preferirem!).
A personalidade dele se manifesta em coincidencias. Prefiro chamar assim pois sou relutante em acreditar em situações paranormais, metafisicas ou algo assim. Mas confesso que, vez por outra, essa minha vertente fora do compreensivel se manifesta e desafia minha lógica.
Pois eu já morava fora de São Paulo, o  relógio mantinha o tiquetaquear grave e monotono pendurado no hall perto do meu quarto, quando, numa das noites de dezembro 1991, acordei assustada com um pesadelo. O relógio estava parado. Lembrei de meu sonho: meu pai me chamava angustiado. Não dei atenção e, de manhã, sai para trabalhar. Lancei meu jipe 8 valvulas em direção a São Paulo para mais uma jornada no hospital. Quando voltei, tarde da noite, para casa, no portão do rancho havia um bilhete: seu pai teve um enfarte subito e morreu. Fiz meia volta e fui o mais rápido que pude, e jipe não corre mesmo que voce tenha a maior pressa do mundo, de volta para São Paulo...
Tempos depois o relógio, por motivos que não vale a pena contar aqui, sumiu, desapareceu e não deixou pistas de seu paradeiro.
Mudei, mais uma vez, minha moradia. Há alguns anos, três mais precisamente, vasculhando uma loja de 'largados' , aqui em Ibiuna, achei o meu velho relógio. Desmontado, quebrado, judiado. Comprei, embrulhei cuidadosamente num pano e levei para casa. Peça a peça, com todo carinho, fui colando, untando e rejuntando e...finalmente pedurado na cantina ele começou a ressucitar num timido tictac. Assim voltou a marcar, totalmente sem utilidade, as horas mas a personalidade dele  se manifesta todas vezes que alguem querido está mal: ele para de funcionar e só retoma seu ritmo quando a situação está resolvida.
Porque justo hoje resolvi escrever sobre esse 'parceiro'? Em abril, deste ano, ele parou! Não houve impulso que o fizesse funcionar. Dia após dia eu movia seu falecido pendulo, puxava os pesos e nada. Hoje, do nada, resolveu funcionar. Sei que alguem querido está bem!!!